BITCOIN - Acreditando nas pessoas de olhos fechados
Acreditando nas pessoas de olhos fechados
The Economist
31 Outubro 2015 | 05h 29
A tecnologia por trás do
bitcoin, que permite que indivíduos que nem se conhecem possam confiar
uns nos outros, está indo muito além da criptomoeda
Em 2009, quando a polícia hondurenha apareceu para
despejá-la, fazia trinta anos que Mariana Catalina Izaguirre morava em
sua casinha humilde. Ao contrário de muitos de seus vizinhos na capital
Tegucigalpa, ela tinha até uma escritura atestando que o terreno lhe
pertencia. Mas nos livros do Instituto de la Propriedad, o imóvel estava
registrado em nome de outra pessoa também — e essa pessoa convenceu um
juiz a assinar a ordem de despejo. Quando o embrulho jurídico finalmente
foi desatado, a casa de Izaguirre tinha sido demolida.
Esse
é o tipo de coisa que acontece diariamente em lugares onde os registros
de imóveis são mal conservados, mal administrados e/ou corruptos — vale
dizer, em grande parte do planeta. A fragilidade dos direitos de
propriedade é fonte endêmica de insegurança e injustiça. Também
dificulta o uso de uma residência ou de um terreno como garantia na
contratação de empréstimos, restringindo os investimentos e a criação de
empregos.
Tais problemas parecem completamente alheios ao universo do
bitcoin, uma moeda baseada em engenhoso sistema de criptografia que
conta com um grupo dedicado de seguidores entre geeks em sua maioria
ricos, com frequência animados por ideologias anti-estatais e, por
vezes, criminosos. Mas a tecnologia por trás do bitcoin, chamada de
“blockchain” (literalmente, corrente, ou cadeia, de blocos), tem
aplicações que vão muito além daquelas a que se presta uma moeda,
oferecendo a pessoas que não se conhecem, nem confiam umas nas outras, a
possibilidade de criar um registro que, especificando quem é
proprietário de quê, obriga a anuência de todos os envolvidos. É uma
maneira de estabelecer e preservar verdades.
Daí que os políticos que querem reformar o Instituto de la
Propriedad de Honduras tenham solicitado à startup americana Factom o
desenvolvimento de um protótipo de registro de imóveis baseado na
tecnologia blockchain. A ideia atraiu o interesse da Grécia, onde não há
cartórios de imóveis propriamente ditos e apenas 7% do território é
mapeado. A tecnologia blockchain nasceu na cabeça de Satoshi Nakamoto, pseudônimo do criador do bitcoin, até o momento não identificadaUm lugar no passado. A
blockchain, assim como tecnologias similares, que também funcionam como
“livros-razões distribuídos”, pode ser empregada com muitas
finalidades: de frustrar a ação de ladrões de diamantes a modernizar e
simplificar o funcionamento das bolsas de valores: a Nasdaq em breve
adotará um sistema baseado na blockchain para registrar transações com
ações de empresas de capital fechado. O Banco da Inglaterra, cujo
entusiasmo por novidades tecnológicas nunca foi dos maiores, dá sinais
de empolgação: a instituição conclui uma nota de pesquisa divulgada no
fim do ano passado afirmando que os livros-razões distribuídos
constituem uma “inovação significativa”, com possíveis “implicações de
longo alcance” para o setor financeiro.
Os engajados em atividades políticas veem a blockchain indo
mais longe que isso. Em maio, quando cooperativas e esquerdistas se
reuniram em Paris no OuiShare Fest para debater de que maneira
organizações sociais poderiam combater repositórios gigantes de dados,
como o Facebook, foram raros os discursos que não citaram a blockchain.
Os ultraliberais sonham com um mundo onde as regulamentações estatais
sejam cada vez mais substituídas por contratos firmados entre
indivíduos, contratos que, graças a programações baseadas na blockchain,
devem se encarregar de garantir seu próprio cumprimento.
A tecnologia blockchain nasceu na cabeça de Satoshi Nakamoto, o
brilhante, pseudônimo e até o momento não identificado criador do
bitcoin – “uma versão puramente peer-to-peer de dinheiro eletrônico”,
como ele o descreveu em artigo de 2008. Para que pudesse funcionar como
dinheiro, o bitcoin tinha de trocar de mãos sem correr o risco de ser
desviado para a conta errada e não podia ser gasto duas vezes pela mesma
pessoa. Além disso, para que um sistema descentralizado, como o sonhado
por Nakamoto, ganhasse vida, era preciso que tais abusos fossem
coibidos sem o auxílio de terceiros dignos de fé, como os bancos que
oferecem respaldo aos sistemas de pagamentos convencionais.
É a blockchain que faz as vezes desses terceiros dignos de fé.
Por ser um banco de dados que contém o histórico de pagamento de cada
bitcoin em circulação, a blockchain comprova quem é proprietário de quê.
Esse livro-razão distribuído é replicado em milhares de computadores –
os nodes (“nós de ligação”) do bitcoin – espalhados pelo mundo, e pode
ser consultado por qualquer pessoa. Mas, apesar de toda transparência e
acessibilidade, também é confiável e seguro. Isso é viabilizado por uma
mistura de perspicácia matemática e força bruta computacional,
incorporada a seu “mecanismo de consenso” — o processo por meio do qual
os nodes entram em acordo sobre como atualizar a blockchain à luz das
transferências de bitcoins de uma pessoa para outra.
Digamos que Alice queira pagar a Bob por serviços que ele
prestou a ela. Ambos têm “carteiras” de bitcoins – um software que
acessa a blockchain quase como um navegador acessa a internet, mas sem
identificar o usuário para o sistema. A transação começa com a carteira
de Alice propondo que a blockchain seja modificada, passando a indicar
que agora ela própria tem menos bitcoins e que a carteira de Bob ficou
um pouco mais cheia.
A rede realiza uma série de passos para confirmar a
modificação. À medida que a proposta se propaga, os vários nodes da rede
verificam, por meio de consultas ao livro-razão, se Alice tem mesmo os
bitcoins. Se tudo parecer correto, nodes especializados, chamados
“mineiros”, juntarão a proposta de Alice a outras transações igualmente
dignas de crédito a fim de criar um novo bloco para a blockchain.
Isso implica a alimentação contínua de dados por meio de uma
função “hash” criptográfica (aplicação de um algoritmo a um conjunto de
caracteres, sem levar em consideração seu significado), que transforma o
bloco numa sequência de dígitos de determinada extensão. Como é comum
em criptografia, esse hashing é uma via de mão única. O caminho que vai
dos dados a seu hash é fácil de ser feito, mas não há como percorrer o
caminho de volta, que vai do hash aos dados. Apesar de não os conter, o
hash é único em relação aos dados. A alteração mais mínima no bloco — a
mudança de um único dígito de uma transação, por exemplo — produz um
hash diferente. Rodando na sombra. O hash é inserido,
junto com alguns outros dados, no cabeçalho do bloco proposto. Esse
cabeçalho torna-se, então, base de um complicado enigma matemático, que
envolve mais uma vez a utilização da função hash, e que só pode ser
solucionado por tentativa e erro. Os mineiros da rede se põem a
processar trilhões e trilhões de possibilidades, à procura da solução.
Quando um deles chega a ela, os outros nodes rapidamente começam a
verificá-la (aqui, mais uma vez, a via é de mão única: solucionar o
enigma é difícil; verificar se a solução está correta é fácil) e o bloco
é então atualizado por cada um dos nodes que confirma a solução. O hash
do cabeçalho passa a ser a sequência que identifica o novo bloco, e
esse bloco agora faz parte do livro-razão. O pagamento de Alice a Bob, e
todas as outras transações contidas no bloco, está confirmado.
A etapa do enigma introduz três elementos que contribuem
imensamente para a segurança do bitcoin. Um deles é o acaso. Não há como
prever qual dos mineiros solucionará o enigma, de modo que é impossível
predizer qual deles será responsável pela atualização do bloco em
determinada ocasião. A única coisa que se pode afirmar é que será um
mineiro diligente, e não um intruso aleatório. Isso dificulta fraudes.
A segunda contribuição diz respeito à história. Cada novo
cabeçalho contém um hash do cabeçalho do bloco anterior, que, por sua
vez, contém um hash do cabeçalho precedente, e assim por diante, até
chegar ao cabeçalho do primeiro bloco, o chamado “bloco gênese”. É essa
concatenação que dispõe os blocos numa corrente. Partindo-se de todos os
dados contidos no livro-razão é fácil reproduzir o cabeçalho do último
bloco. Mas, experimente-se fazer uma mudança em qualquer lugar, e o
cabeçalho do bloco que foi alterado será diferente, o que significa que o
cabeçalho do bloco seguinte também se modificará e assim como os blocos
subsequentes. O livro-razão não estará mais de acordo com o
identificador do bloco mais recente, e será rejeitado.
Há alguma maneira de contornar isso? Imagine-se que Alice muda
de ideia em relação a pagar Bob e tenta reescrever a história para que
os bitcoins permaneçam em sua carteira. Se fosse uma mineira competente,
ela seria capaz de solucionar o enigma e produzir uma nova versão da
blockchain. Mas enquanto fizesse isso, o restante da rede teria
acrescentado novos blocos à blockchain original. E os nodes sempre
trabalham com a versão mais longa da blockchain. Essa regra impede que
os momentos em que dois mineiros encontram quase simultaneamente a
solução para um enigma produzam algo mais grave do que uma bifurcação
temporária na corrente. Também evita fraudes. Para obrigar o sistema a
aceitar sua nova versão, Alice teria de encompridá-la mais, e a um ritmo
mais veloz, do que o restante do sistema faria com a versão original.
Sem controlar mais da metade dos computadores da rede – algo que no
jargão do meio é chamado de “ataque dos 51%” –, isso não é possível.
Os sonhos às vezes são contagiantes. Deixando de lado as
dificuldades enfrentadas por quem queira tentar subverter a rede, a
questão é: por que se dar o trabalho de participar dela? Porque o
terceiro elemento que a etapa da solução de enigmas acrescenta ao
sistema é um incentivo. Novos blocos geram novos bitcoins. O mineiro
vencedor recebe 25 bitcoins, os quais, pela cotação atual, valem US$ 7,5
mil.
Em si mesma, essa engenhosidade toda não faz do bitcoin uma
moeda particularmente atraente. Sua cotação é instável e imprevisível; o
montante total em circulação é deliberadamente limitado. Mas o
mecanismo da blockchain funciona muito bem. Segundo o site
blockchain.info, que registra esse tipo de coisa, diariamente são
acrescentadas, em média, mais de 120 mil transações à blockchain, com
cerca de US$ 75 milhões trocando de mãos. Atualmente há 380 mil blocos; o
livro-razão tem quase 45 gigabytes.
A maior parte dos dados contidos na blockchain diz respeito a
bitcoins. Mas não precisa ser assim. Nakamoto criou o que os geeks
chamam de “plataforma aberta” — um sistema distribuído cujo
funcionamento está aberto a exame e elaborações. O paradigma desse tipo
de plataforma é a própria internet; outros exemplos incluem sistemas
operacionais como o Android ou o Windows. Assim, é possível desenvolver
aplicativos que façam uso de características básicas da blockchain sem
que seja necessário pedir autorização ou pagar a alguém por esse
privilégio. “A internet finalmente tem um banco de dados público”, diz
Chris Dixon, da empresa de capital de risco Andreessen Horowitz, que
financiou diversas startups de bitcoin, incluindo a fornecedora de
carteiras bitcoin Coinbase e a 21, que produz hardwares de mineração de
bitcoins para leigos.
Por ora, as possibilidades de utilização com base na
tecnologia blockchain resumem-se a três categorias. A primeira tira
partido do fato de que a blockchain permite transferências de qualquer
tipo de ativo. A Colu, uma das startups que aposta nessa ideia,
desenvolveu um mecanismo para “marcar” transações extremamente pequenas
de bitcoins (chamadas “poeira de bitcoin”), acrescentando dados
adicionais a fim de que possam representar títulos de dívida, ações de
empresas ou unidades de metais preciosos.
A proteção a escrituras de imóveis é um exemplo da segunda
categoria: aplicativos que usam a blockchain como uma espécie de máquina
da verdade. As transações de bitcoins podem ser combinadas com pequenos
extratos de informação adicional que, dessa forma, também se incorporam
ao livro-razão. Servem, portanto, como registro de qualquer coisa que
valha a pena acompanhar de perto. A Everledger usa a tecnologia
blockchain para proteger artigos de luxo, introduzindo, por exemplo,
dados sobre as características de determinada pedra preciosa, o que
oferece prova inquestionável de sua identidade, caso ela venha a ser
roubada. A Onename armazena informações pessoais de uma maneira que
torna dispensável o uso de senhas; o CoinSpark funciona como tabelião.
Observe-se, porém, que nessas utilizações, ao contrário do que ocorre
com as transações de bitcoin puras, faz-se necessário algum grau de
confiança; a pessoa precisa acreditar que o intermediário armazenará os
dados com precisão e fidedignidade.
É a terceira categoria que inclui as utilizações mais
ambiciosas: “contratos inteligentes” que se executam a si mesmos, de
forma automática, em determinadas circunstâncias. O bitcoin pode ser
“programado”, de modo a se tornar disponível somente sob certas
condições. Um dos usos dessa funcionalidade é a postergação dos
pagamentos a que os mineiros têm direito por solucionar um enigma, até
que outros 99 blocos sejam acrescentados — coisa que oferece mais um
incentivo para manter a blockchain em bom estado.
O Lighthouse, projeto iniciado por Mike Hearn, um dos
principais programadores do bitcoin, é um serviço descentralizado de
crowdfunding que faz uso desses princípios. Se determinado projeto
recebe recursos em quantidade suficiente, ele é executado; se a meta não
é alcançada, não sai do papel. Hearn diz que o esquema é mais barato do
que o de concorrentes que não fazem uso da tecnologia bitcoin, além de
ser mais independente, sendo impossível para autoridades governamentais
bloquear um projeto pelo qual não tenham simpatia.
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